segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

O vencedor de competição de programação do Google sem acesso à internet

Nji Collins Gbah tem 17 anos e participou da competição Google Code-in com mais de 1.300 jovens de 62 países Foto: Nji Collins Gbah / BBCBrasil.com

Perseverando com entusiasmo



O primeiro vencedor africano do disputado concurso anual de programação do Google está vivendo a 370 km da sua cidade, na casa de primos em Iaundê, a capital de Camarões, porque o governo cortou a internet onde ele mora. Nji Collins Gbah, de 17 anos, relata os vários trabalhos técnicos complexos que realizou para o Google entre novembro do ano passado e meados de janeiro de 2017. Ele entrou no concurso do Google com o conhecimento de programação que adquiriu por conta própria durante dois anos, principalmente da internet ou de livros sobre o assunto. A competição Google Code-in é aberta a estudantes de todo o mundo, com idades entre 13 e 17 anos. Mais de 1.300 jovens de 62 países participaram. Quando as inscrições foram encerradas, Nji já tinha completado 20 trabalhos, em todas as cinco categorias criadas pelo Google. Ele levou uma semana inteira para completar apenas um deles. E, apenas um dia após ter entregado seus trabalhos, a internet deixou de funcionar.

O jovem Nji estuda programação por conta própria e sonha em um dia trabalhar no Google Foto: Nji Collins Gbah / BBCBrasil.com


Discriminação 

Nji vive na cidade de Bamenda, no noroeste do país e a sete horas de carro da capital de Camarões. O noroeste e o sudoeste de Camarões são áreas de língua inglesa, regiões que há muito tempo se sentem discriminadas pela falta de empenho do governo em respeitar o status de inglês como língua oficial do país ao lado do francês. Camarões, que fica na África Ocidental, foi colonizado pela Alemanha no século 19 e, depois da Primeira Guerra Mundial, acabou dividido entre a França e a Grã-Bretanha. Em 1960, a parte de Camarões administrada pelos franceses tornou-se independente como República de Camarões. A parte sul, chamada de Camarões Britânicos, fundiu-se à francesa em 1961 formando a República Federal dos Camarões. Em 1972, o país passou a se chamar República Unida de Camarões e, em 1984, República de Camarões. Francês e inglês são as línguas oficiais. De acordo com as Nações Unidas, muitos dos anglófonos dizem estar sofrendo discriminação ao serem excluídos de cargos nos serviços públicos, além de ter acesso limitado ao sistema judiciário, pois a maioria das leis está em francês. Nos últimos meses, a insatisfação se transformou em protestos e greve de advogados e professores. As autoridades responderam com uma onda de prisões e a ameaça de pesadas penas para quem "espalhar notícias falsas" e fizer "uso malicioso das mídias sociais". De acordo com relatos, os camaroneses no noroeste e sudoeste do país estão sem acesso à internet desde o último dia de 17 de janeiro. Para um adolescente como Nji, apaixonado por tecnologia, desligado da política e cuja escola está fechada por causa dos protestos, viver sem internet é impensável.

A cidade de Bamenda está sem internet desde o começo do ano por causa de uma disputa entre a população de língua inglesa e o governo central de Camarões, que adota o francês. Foto: BBC / BBCBrasil.com


'Um monte de códigos' 

Quando estava ficando claro que o corte da internet era mais do que temporário, Nji recebeu a notícia: estava entre os 34 ganhadores do Grande Prêmio do Google Code-In. Cada um dos jovens passará quatro dias na sede do Google, no Vale do Silício, no Estado americano da Califórnia. "Fiquei muito, muito surpreso", diz. "Isso queria dizer que todo o trabalho que tive, escrevendo um monte de códigos, realmente valeu a pena". Mas um campeão de programação sem internet não vai muito longe. Surgiu então a ideia da viagem para a capital, Iaundê. "Eu queria ter uma conexão para poder continuar estudando e fazer contato com o Google", conta Nji.

Ele espera poder concluir os estudos em Bamenda para depois cursar Ciência da Computação em uma boa universidade. Nji vai para a sede do Google na Califórnia em junho, onde conhecerá e conversará com engenheiros da companhia.

Sonhando alto "Se tudo der certo, quero um dia trabalhar lá", confessa. Por enquanto, Nji conta que está se dedicando a saber mais sobre inteligência artificial, redes neurais e deep learning - aprendizagem profunda. "Estou tentando desenvolver meu próprio modelo de compressão de dados, utilizando aprendizagem profunda e aprendizado de máquina", diz Nji. Seu objetivo é dar um "salto" na melhoria das capacidades de transferência e armazenamento de dados. A aprendizagem profunda é um ramo do aprendizado de máquina, que explora o estudo e construção de algoritmos que podem aprender de seus erros e fazer previsões sobre dados.

Os vencedores da competição de programação vão passar quatro dias, em junho, na sede do Google, em Mountain View, na Califórnia Foto: Getty Images / BBCBrasil.com


Daqui a alguns dias Nji, completará 18 anos. Ele revela que conferiu a lista de ganhadores da competição do Google dos anos anteriores para verificar se era mesmo o primeiro vencedor da África. Nji diz que recebeu cumprimentos de "muitos amigos, parentes e de algumas pessoas" que sequer conhece. Alguém do governo entrou em contato? "Não, ninguém", responde. Enquanto isso, em Bamenda, cidade de 500 mil habitantes e berço de uma das mais brilhantes mentes jovens do continente, ainda não se sabe quando o governo vai reconectar a internet.

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